terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ainda estou aqui - Marcelo Rubens Paiva


Já faz 2 semanas que terminei de ler “Ainda estou aqui” e não consigo escrever uma resenha decente. Falando bem superficialmente (afinal, preciso começar por algum lugar), em seu novo livro Marcelo Rubens Paiva mescla memórias particulares com acontecimentos da história pública recente do país em uma narrativa que resgata lembranças de sua infância feliz, tenta entender sua juventude conturbada e procura montar o quebra-cabeça do passado de sua família em busca de pistas que lhe ajudem a trilhar uma nova fase de sua vida.

Ler esse livro foi como sentar ao lado daquele amigo que é bom contador de histórias. Falando de um jeito franco e sem afetação, Marcelo revive os dias de diversão no interior com os primos, os bailinhos adolescentes, as dificuldades com as garotas e, claro, o período nebuloso que envolveu o desaparecimento de seu pai durante a ditadura, bem como os anos difíceis que vieram depois, as informações desencontradas, a vida em suspenso enquanto a morte não era oficialmente decretada. Ele fala, sobretudo, de sua mãe, ou melhor, das várias faces de sua mãe.

Eunice Paiva nunca se encaixou no estereótipo de mãe ideal – não era do tipo afetuoso (não era daquelas que ficam beijando, abraçando, apertando o tempo todo) e não tolerava manhas – tampouco se enquadrava na descrição de uma italiana típica (vivia de regime, não falava alto nem gesticulava demais). Nas férias, preferia ficar trancada no quarto, lendo, a brincar com os filhos e outras crianças da família na piscina. Era uma mulher prática, que ensinava (e cobrava) as regras da boa educação, mas que dava autonomia aos filhos para que assumissem obrigações e tomassem suas próprias decisões (o autor guarda uma mágoa infantil por sua mãe jamais ter ido a uma reunião de pais e mestres de seu colégio – o que teria feito qualquer criança comemorar – mas ela não fazia isso por desinteresse: fazia porque confiava no que havia passado aos filhos, acreditava na capacidade deles).

No entanto, foi justamente essa praticidade, essa visão racional das coisas, que lhe permitiu tomar as rédeas da família e seguir vivendo com ordem e determinação após o desaparecimento do marido. Uma mulher que sempre fora uma esposa exemplar, do tipo que espera o cônjuge com o jantar recém-saído do forno, um visual impecável e um sorriso no rosto, então se via em uma situação nova: cinco filhos para cuidar, contas bancárias e bens bloqueados, um seguro de vida que não podia resgatar devido à impossibilidade de provar a morte do esposo. Com sua sensatez aliada ao senso de urgência, arregaçou as mangas e foi estudar, formou-se em direito, mergulhou no trabalho, envolveu-se com causas indígenas.

Uma mulher forte, sem dúvida. E é justamente por isso que o autor sofre ao vê-la sendo dominada pelo Alzheimer, uma doença degenerativa e incurável de origem incerta. Depois de uma vida de luta, aos 77 anos, a mãe é interditada judicialmente. Ela, que ajudara a cuidar da interdição de parentes e amigos tantas vezes, agora assumia para o lado passivo da história. Ela, que criara os filhos sozinha e cuidara intensamente de Marcelo quando ele sofreu o acidente que o deixou paraplégico, agora passava a ser responsabilidade dele, passava a ser cuidada por ele. A inversão dos papéis.

Gostei muito das partes em que o autor fala da doença da mãe, de como a deterioração física e mental dela afetou a todos ao redor, dessa mudança na relação entre a mãe e ele e de como seu próprio filho entrou na equação e conseguiu se comunicar com a avó mesmo sem palavras.

Outra característica do livro que me agradou muito foi que Marcelo consegue escrever de um jeito leve, mesmo quando aborda assuntos pesados, como o Alzheimer e a ditadura. Aliás, achei bem bacana um trecho em que ele fala dos militares sem generalizar, dizendo que sabia que o inimigo era um regime, não uma carreira, e quando enfatiza a busca por justiça, mas sem sentimentos como ódio ou vingança.

“Naquela tarde que pegamos o atestado de óbito, em 1996, vi minha mãe então chorar como nunca fizera antes. Era um urro. Não tinha lágrimas. Como se um monstro invisível saísse de sua boca: uma alma. Um urro grave, longo, ininterrupto. Como se há muito ela quisesse expelir. Pela primeira vez, me deixou falar, sem me interromper. Pela primeira vez, na minha frente, chorou tudo o que havia segurado, tudo o que reprimiu, tudo o que quis. Foi um choro de vinte e cinco anos em minutos. O rompimento de uma represa.”

Foi ótimo reencontrar um velho amigo depois de muitos anos e conhecer novos detalhes de uma história que eu já havia escutado anteriormente. Recomendo muito!

Resenha originalmente publicada no Resumo da Ópera e cedida para o projeto Lendo a Ditadura

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Feliz Ano Velho



Feliz Ano Velho é um romance testemunho, narrado em primeira pessoa por Marcelo, narrador-personagem dessa história. É um romance sobre o passado, pois relata sua juventude e como tudo mudou a partir do momento em que ele sofre um acidente ao pular de um lago raso e fraturar a coluna na queda. Por conta do acidente, Marcelo fica paralisado do pescoço para baixo. Por meio desse testemunho de tudo o que passou no hospital durante os meses em que ficou internado, tomamos conhecimento de seu sofrimento e de sua luta para recuperar pelo menos uma parte dos movimentos.

Marcelo passa por uma cirurgia e, após alguns meses no hospital em tratamento, consegue recuperar o movimento dos braços, mas permanece paraplégico. Durante o período em que está no hospital fazendo fisioterapia e angustiado diante da possibilidade de nunca mais ter os movimentos e a sua vida de volta, ele relembra a sua infância, quando o pai, o deputado Rubens Paiva, é sequestrado e morto pelos militares na ditadura militar brasileira, assim como outros momentos que marcaram sua juventude: o convívio com os amigos na época da universidade, sua relação com a música e com as mulheres. Contudo, a ditadura militar não é o tema central desse romance, uma vez que o tema só aparece em determinado momento da narrativa quando Marcelo relembra o dia em que o pai foi levado pelos militares, descrevendo o medo que sentiu e o sofrimento de sua mãe, que continuou por muito tempo a procurá-lo. Ainda assim, é um testemunho importante do que de fato ocorreu com tantas pessoas durante a ditadura militar em nosso país e as marcas que ficaram para sempre nessas famílias.

Mas Feliz Ano Velho fala de Marcelo. Do que ele sentia, do que ele se lembrava enquanto estava no hospital, dos muitos amigos que estiveram ao seu lado durante esse período de recuperação, enfim, é um exemplo dessa escrita de si. O livro é um testemunho interessante e importante em nossa literatura por trazer uma realidade pouco discutida pela maioria das obras que é a questão da deficiência. Para comprovar isso basta tentar lembrar: quantos personagens com alguma deficiência física você lembra de já ter lido?

Entre lembranças de sua juventude na universidade, dos seus relacionamentos com as garotas, e outras lembranças de sua vida às quais ele recorre como que para fugir da situação de paralisa em que se encontrava no hospital e que exigia muita paciência, aos poucos, Marcelo toma consciência de que não voltará ao que era no passado e que é preciso seguir em frente. O processo de negação inicial dá lugar a um Marcelo consciente de que está paraplégico e que terá que reconquistar sua independência em cada pequena ação do dia a dia, sem deixar de notar as dificuldades e o preconceito que as pessoas com alguma deficiência física enfrentam nas cidades brasileiras, onde a acessibilidade ainda hoje, 30 anos depois da publicação do romance, não é ideal. É nesse momento que o foco do romance parece mudar um pouco, demonstrando o amadurecimento do personagem ao descobrir sua força para lidar com essa nova situação, reencontrando na escrita uma forma de tratar do assunto, compartilhar experiências e também de trabalho. Nesse sentido, o livro traz informações importantes sobre a dificuldade de adaptação que pessoas como Marcelo tiverem que enfrentar, mas mostrando, de forma positiva, que é possível viver bem e superar as dificuldades.

*Resenha publicada originalmente no blog Pipa não sabe voar.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Quarup, Antônio Callado


Título: Quarup
Escritor: Antônio Callado (Brasil)
Ano de Publicação: 1967
Editora: José Olympio
Páginas: 574
Gênero: Drama, Romance, História
Nota: ♥ ♥ ♥ 


Essa é uma obra de fôlego, contendo quase 600 páginas que acompanham a história do Brasil desde 1954, ano em que Getúlio Vargas morre, até pouco mais de 1964, quando a ditadura militar tem início. Ler essa obra tão grandiosa é voltar os olhos para o passado, buscando compreender o futuro do Brasil, o que se encaixa como um luva no nosso atual momento histórico.

Quarup é o livro mais famoso de Antônio Callado. É uma obra politicamente engajada, que discute a identidade do Brasil enquanto país, enquanto nação. Seu protagonista, o padre Nando, é uma metáfora para todo o povo brasileiro, em sua constante busca por objetivos, por definições e por valores. Em muitos aspectos, por suas grandes ambições, Quarup me lembrou Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Quarup, contudo, é uma obra mais voltada para a realidade política do Brasil, enquanto Viva o Povo Brasileiro foca mais nas questões sociais e raciais.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Pessach: A Travessia - Carlos Heitor Cony


Em “Pessach: A Travessia” acompanhamos o escritor Paulo Simões em uma série de compromissos que ele deveria cumprir no dia de seu 40º aniversário: ir ao escritório para falar com seu editor, visitar a filha no internato, passar pela casa dos pais para o almoço protocolar, aproveitar para dar um pulo na casa da ex-esposa, receber um colega que dizia ter um assunto urgente para tratar. A cada parada, uma surpresa. O dia que parecia ser apenas mais um igual a tantos outros se transforma no início de uma grande mudança.

Paulo é um cara comum, que se define como simples, neutro, sem nenhum traço que o faça se destacar, sem amigos, dívidas ou amores. No dia em que completa 40 anos ele se sente velho, cansado e inútil. Tudo o que quer é ter um dia agradável e sem complicações, mas isso é exatamente o oposto do que acontece. No escritório, o editor lhe pede um conto com um tema inusitado e fútil; no internato a filha se mostra animada ao falar dos livros comunistas proibidos que lê às escondidas com as amigas e o chama de alienado; na casa dos pais, a mãe sofre de dores e aguarda o médico enquanto o pai diz que quer se assumir judeu depois de uma vida toda de negação – e ainda esquecem de seu aniversário; a ex-esposa lhe apresenta ao novo marido beberrão e ao filho recém-nascido que ele nem sabia da existência; por fim, o antigo colega o convoca para a luta contra a ditadura. Novidade demais para absorver de uma vez.

Sendo um cara declaradamente sem posicionamentos, Paulo Simões (cujo sobrenome real e judeu é Simon e que aprendera a renegar sua origem com o pai) ri diante da proposta do colega Sílvio. Envolver-se em política, lutar contra a ditadura, pegar em armas? Não, nem pensar! Ele já demonstrava seu apoio assinando manifestos. Era o máximo que podia fazer, obrigado. E, com licença, mas tenho um conto encomendado para escrever e vou viajar para poder me dedicar totalmente ao trabalho. Quem sabe começar a pensar em um novo romance. Adeus e boa sorte!

Só que as coisas não saem bem como Paulo havia planejado e, ao dar uma simples carona a Vera, a moça que fora com Sílvio ao seu apartamento, ele se vê envolvido com um grupo que se organizava para derrubar a ditadura. Acaba ficando preso em um sítio que servia de base para um braço da organização (não que fosse refém; apenas não podia ir embora), é apresentado ao funcionamento do local, recebe uma cabana só para si, para que pudesse escrever à vontade, conhece melhor alguns participantes do movimento. Embora ninguém o obrigasse a participar, Paulo fazia questão de enfatizar sempre que tinha oportunidade que não queria participar de nada, que só estava ali porque era obrigado, que assim que pudesse voltaria para casa e retomaria sua vida pacata, ordeira e sem emoção.

No entanto, sem se dar conta, Paulo acaba envolvido na luta; primeiro só se oferecendo para escrever sobre os ideais do grupo antiditadura; depois realmente partindo para a ação e pegando em armas. Ainda que relutasse em participar e agisse contra sua natureza, quando, a certa altura da história, ele é liberado e tem a chance de tomar um avião rumo ao seu aconchegante e seguro lar, ele já está modificado demais para não se importar com tudo o que vê ao seu redor.

E é então que o título do livro passa a fazer sentido: “pessach” significa “travessia, passagem”, e é a festa judaica que celebra o êxodo do povo hebreu que preferiu a fome e a morte no deserto a continuar escravo, fugindo pelo Mar Vermelho. A princípio, era apenas um esboço de romance que Paulo iniciara anos antes e que pretendia desenvolver nesse período de isolamento – algo que retomava sua origem judia e que explicava de certa forma a trajetória de seu pai. Depois o termo se amplia ainda mais, e acaba representando sua própria trajetória, de alienado e descompromissado a consciente e engajado. Como seus ancestrais, ele também preferiu abrir mão de uma vida cômoda para encarar as dificuldades da luta pela liberdade.

A primeira parte do livro é bem comum e sem ação, refletindo perfeitamente Paulo e sua existência entediante e sem propósito. A partir do momento em que dá carona a Vera, ele perde completamente o controle de sua vida, se desespera, fica irritado, tenta a todo custo voltar para o que conhece e está acostumado. Como não pode escolher, é arrastado para um mundo bem diferente do seu, mas o qual acaba abraçando, deixando sua individualidade de lado pelo bem do coletivo. Nem preciso dizer que essa segunda parte é bem mais animada e faz a leitura fluir mais rápido, tornando sua contraposição com o início da história ainda mais relevante.

“Não gosto do governo atual, mas jamais gostei de governo algum. Politicamente, sou anarquista comodista, e, por isso, inofensivo e covarde. Não estou disposto a dar ou receber tiro por causa da liberdade, da democracia, do socialismo, do nacionalismo, do povo, das criancinhas do nordeste que morrem de fome. O fato político não me preocupa, é tudo."

Um sujeito apático que encontra uma motivação para sua vida. Diante de tantos retrocessos que temos visto ultimamente, faz pensar: até que ponto somos como o protagonista de "Pessach"?

Resenha originalmente publicada no Resumo da Ópera e cedida para o projeto Lendo a Ditadura

domingo, 4 de outubro de 2015

K., de Bernardo Kucinski


Resenha do livro K., de Kucinski, feita pela Gabriela Francine, do canal Viver para ler, para o Projeto Lendo a Ditadura.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Zero - Ignácio de Loyola Brandão

interlunio37-zeroPublicado em 1974, primeiramente na Itália e só depois no Brasil, Zero é um romance que oferece um retrato pungente de sua época, pois foi escrito pela necessidade de grito diante da Ditadura Militar Brasileira (1964-1985), um período marcado pela censura cultural e o controle dos indivíduos no que eles tinham de mais íntimo, assim como a prisão, tortura e assassinato de pessoas que se opusessem de qualquer forma ao regime.

Extremamente experimental, Zero é um dos romances mais incomuns com que um leitor pode ser deparar na Literatura, pois ele intenta retratar o caos tanto no conteúdo quanto na forma e isso fica evidente pelos vários tipos de textos que se apresentam ao longo da narrativa: a simulação de recortes de jornal, propagandas, cartazes, inscrições de banheiro, letras de músicas e inúmeros outros tipos de texto vão criando uma paisagem do país e seu contexto histórico-social. A diagramação é inusitada, semelhante a de um almanaque, com diversas tipografias, para cada gênero de texto e para cada tipo de efeito. O autor queria ter utilizado até quadrinhos no corpo do livro, o que não foi possível na época de publicação. Além disso, as notas de rodapé oferecem um ponto de vista à parte, com o próprio autor (ou um narrador onisciente, como queira) conversando com a história e ironizando o que está sendo feito ou dito pelos personagens.

O protagonista de Zero é José Gonçalves, um homem comum, que mata ratos num cinema vagabundo. Ele conhece Rosa, sua futura esposa, através de uma agência matrimonial e vive uma relação de amor e ódio com ela, com inúmeros momentos tanto de intensas atividades sexuais como de enormes brigas. Ao longo do livro, José vai se tornando cada vez mais inconformado com o mundo e sua situação neste, até que torna-se um criminoso, e a partir daí o livro vai ficando cada vez mais caótico e violento. O personagem é um símbolo exagerado do inconformismo e do caos:
“Eu fico puto da gente ir aceitando assim, por aceitar, porque está pronto, não precisa mexer. Na verdade, não é bem puto, eu fico confuso, me atrapalha. Às vezes, para mim, uma coisa é quatro e não sete, como eles estão dizendo, mas eles não podem ver como eu posso, que ela é quatro. Eu sinto dentro de mim a linguagem das coisas me dizendo: eu não sou isso, sou aquilo. E tenho que acreditar nas coisas, sejam pedras, paus, plásticos, ferros, papel, flores, o que for."
Enquanto ocorre a saga de José, acompanhamos outras pequenas sagas, e a partir delas o autor aproveita para fazer várias críticas à situação dos brasileiros. Um exemplo disso é a história de Carlos Lopes, que enfrenta uma burocracia esdrúxula e massacrante para que o filho doente seja atendido por um médico. Em outro momento ele põe em foco a falta de identidade dos conjuntos habitacionais, com a personagem Rosa perdida quando volta para sua casa pela primeira vez e não sabe localizar onde mora. Ele ironiza a sufocante padronização de tudo, a proibição do pensamento, do sexo, do prazer, sobretudo das mulheres.

Na edição comemorativa de 35 anos da Global Editora há um depoimento do autor chamado “E se eu não tivesse tido coragem de publicar o Zero naquele ano de 1974?" em que ele comenta como o livro foi se formando, a partir de vários textos que eram censurados no jornal Última Hora, local em que trabalhava na década de 60. Brandão imaginou que tudo aquilo poderia ser aproveitado, uma história que contasse aquilo que não poderia ser dito. Tudo é narrado da forma mais enxuta possível, pois o leitor já conhece a realidade do que lê. Não há necessidade de muitas descrições, daí o grande número de sugestões, com a enorme variedade de textos que compõem o romance. Não é exatamente um livro para apreciar a leitura: é um livro para pensar e para constatar que o passado não faz a menor falta.

*Texto publicado originalmente no blog Ficções do Interlúnio para participar do projeto Lendo a Ditadura.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias


O ano é 1970 e a Copa do Mundo do México se aproxima. Nada poderia ser mais empolgante para o pequeno Mauro (Michel Joelsas), garoto de 11 anos apaixonado por futebol. Só que a ansiedade pela estreia da seleção dá lugar a uma espera triste e angustiada por um telefonema dos pais, que são obrigados a ‘sair de férias’ repentinamente, deixando o menino aos cuidados do avô paterno.

O filme começa com Mauro jogando uma partida de futebol de botão, que é interrompida bruscamente pela chegada do pai, que já entra em casa apressado, pegando malas e arrastando para o carro esposa e filho. Durante a viagem para a capital de São Paulo, é nítida a tensão da mãe, dividida entre o que queria e o que precisava fazer, e o deslumbramento do menino diante dos edifícios altíssimos do centro da cidade e do caminhão militar na estrada. Diante da porta do prédio do avô, Mauro recebe beijos rápidos de despedida e a recomendação de dizer que os pais saíram de férias a quem perguntasse por eles. E ali ele fica, sem entender direito o que está se passando.

O destino decide que é um bom momento para pregar uma peça e acontece de Mauro descobrir que o avô havia morrido naquela mesma manhã, deixando-o sozinho no mundo. A contragosto, ele é acolhido pelo vizinho do avô, Shlomo (Germano Haiut), um judeu idoso solitário que não sabe muito bem o que fazer com uma criança. O choque de culturas e hábitos é incômodo para os dois, mas ambos acabam se adaptando e desenvolvem uma bonita relação. Enquanto aguarda um contato dos pais, Mauro conhece outros moradores do bairro, faz amizade com as crianças, se apaixona platonicamente pela atendente da lanchonete e vivencia toda a emoção da Copa.

Fica claro desde os primeiros minutos que os pais de Mauro são militantes da esquerda fugindo da ditadura, mas o diretor foi muito feliz e bem-sucedido ao abordar esse período tão violento da história do país pela perspectiva de um menino. Em momento algum a dura realidade do que acontecia é deixada de lado; ela é apenas diluída, suavizada pelos personagens adultos para poupar a criança de um sofrimento que ela ainda não é capaz de entender.

O filme consegue dosar perfeitamente momentos divertidos (como quando Hannah (Daniela Piepszyk), a única menina da turma, cobra entrada dos garotos para que espiem pelo provador da loja de roupas da mãe – uma travessura clássica de outros tempos) com aqueles que demonstravam a brutalidade da ditadura (pessoas do bairro sendo agredidas pelos militares e detidas para interrogatório).

A escolha do futebol como pano de fundo também é muito significativa: enquanto milhares de pessoas fugiam, apanhavam, eram mortas por tentarem mudar a situação política do país, outros milhares pareciam desconhecer o que se passava, hipnotizados pelo campeonato mundial. A decisão do próprio Mauro, de ser goleiro, é emblemática: ele é aquele que fica a maior parte do tempo sozinho, observando o que se passa ao redor e tentando entender, enquanto espera pelo pior.

Um filme que fala de amizade, de diferenças, de escolhas e de amadurecimento. Mais que recomendado!

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Resenha originalmente publicada no Resumo da Ópera e cedida para o projeto Lendo a Ditadura

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Mulheres, ditadura e memórias





Vídeo gentilmente gravado pela Agna Farias, especialmente para o projeto Lendo a ditadura. Obrigada, Agna!

domingo, 30 de agosto de 2015

Notas de Um Tempo Silenciado – Robson Vilalba

 
Notas de Um Tempo Silenciado, de Robson Vilalba, publicado em junho deste ano, é um quadrinho fragmentado em histórias referentes do golpe de 1964. Nessas páginas não temos uma releitura dos episódios clássicos, mas uma imersão na história do Brasil e dos brasileiros, algumas delas que permaneceram esquecidas e outras silenciadas.

Formado por treze capítulos: I - No princípio, as trevas; II - As vozes da rua; III - Fogo contra fogo; IV - O duplo; V - O mais longo dos anos; VI - A guerrilheira; VII - Herói de guerra; VIII - Nem tudo foi milagre; IX - A domesticação dos selvagens; X - Os passos da integração; XI - História de caça às bruxas; XII - Desarmados e perigosos; XIII - Salvadores da pátria; e concluindo com uma série de extras na seção Revelando o Notas. A obra de Vilalba acaba sendo um mosaico da pluralidade dos danos desse período nefasto.

A princípio oito dos treze capítulos de Notas foram publicados na série Pátria Armada Brasil pela Gazeta do Povo em março e abril de 2014. Você pode conferir os oitos capítulos AQUI. Como consequência de seu cuidadoso trabalho, o autor recebe o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos no mesmo ano. 

Notas faz uma análise direta e muito interessante desses acontecimentos e o autor consegue condensar as informações em poucas páginas de forma clara e que instigam a reflexão e a pesquisa. O traço realista ajuda também a externalizar os males da ditadura de 64.

Dentre esses fatos, as vozes silenciadas dos povos indígenas foi um dos pontos que achei mais importante no quadrinho, pois são esses, que sofreram e sofrem com a violência, desde a época da colonização (ou invasão, se preferirem) e que estão postos à margem da história do Brasil, definidos como cidadãos de segunda classe. Naquelas páginas, a mordaça é retirada para que gritem em protesto, para que suas dores não sejam esquecidas e que não sejam classificadas como menos importantes.

O caderno suplementar Revelando o Notas merece destaque, pois estão reunidas informações mais detalhadas a respeito de cada capítulo, incluindo suas fontes; relatos do autor; e textos curiosos de pesquisadores, jornalistas e editores acerca dos fatos presentes nessa obra. Recomendo a leitura de dois textos em particular: Engenharia do Caos, de Milton Ivan Heller – fala dos apoiadores e patrocinadores do golpe; e Nós, Os Índios do Brasil, de Maria Rita Kehl – um texto profundo sobre os considerados cidadãos de segunda classe.


Chamou-me atenção uma parte do mosaico que parece com o cenário atual: o capítulo dois As vozes da rua, que comenta sobre a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Aquela marcha fascista que tinha como objetivo apoiar o golpe que seria executado pelas Forças Armadas dias depois, antecedendo a derrubada de João Goulart da presidência da República.

Assim como a marcha de cinquenta e um anos atrás, as “manifestações” atuais de ‘verde e amarelo’ seguem com os mesmos argumentos: a vaga luta contra a corrupção (*por obsequio, me diga, quem em sã consciência é a favor da corrupção? Até o corrupto é contra a corrupção. E não, o Escândalo na Petrobras não é o maior escândalo de corrupção do nosso país. Force a memória e lembra-se daquela mineradora, patrimônio público, chamada Vale do Rio Doce, que foi “vendida” a preço de banana (avaliada em R$100 bilhões, foi vendida por apenas R$3,3 bilhões) para grandes corporações privadas estrangeiras na época do governo FHC. Vendida entre aspas, porque o dinheiro pago veio do BNDES, ou seja, nosso dinheiro emprestado a juros de pai para filho.*) e a ameaça “comunista” (*que só existe na cabeça deles. E que raios de Comunismo é esse que privatiza ao invés de estatizar?*). O estilo dos manifestantes também segue a mesma linha dos de 64: tradicionalistas, religiosos fanáticos (cristãos!), resumindo: fascistas. Que se dizem nacionalistas, mas que adoram entregar nossa riqueza para os capitais estrangeiros.

Toda essa ode aos anos de chumbo é patrocinada por quem? Assim como nas ditaduras implantadas na América Latina dos anos 50 e 60, pelo atual império: Estados Unidos, que há décadas vem destruindo países (Iraque, Afeganistão, Vietnã, etc.), roubando riquezas e implantando ditaduras fascistas travestidas de democracia. (*Recomendo fortemente o documentário Zeitgeist Addendum – clique AQUI para assistir e não se esqueça de ativar a legenda em português*)

Espero que um novo golpe não aconteça, espero que não tenhamos o mesmo cenário da época da ditadura militar e de governos de direita, mas que avancemos para uma sociedade igualitária.

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Resenha originalmente publicada no Lulunettes e cedia ao projeto Lendo a Ditadura.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Zuzu Angel


No começo da década de 70, Zuleica – Zuzu – Angel era uma estilista brasileira badalada nos Estados Unidos e pronta para tomar o mundo. Presença constante na elite brasileira (composta de muitos militares), ela enfrentava uma realidade muito diferente em casa. Stuart, seu filho, havia se aproximado de movimentos de esquerda e estava atualmente participando do movimento estudantil.

Enquanto se prepara para comemorar a aprovação de um financiamento que poderia elevar sua marca, Zuzu recebe a notícia de que Stuart foi preso pelos militares. Ela vai com as filhas procurá-lo, mas ninguém pode dizer nada sobre Stuart. Os advogados não podem ajudá-la porque os militares acabaram com o Habeas Corpus para crimes políticos.

Zuzu é rápida. Utilizando-se de seus contatos com as esposas da alta sociedade, ela consegue ajuda de um General que vai com ela para procurar seu filho. Sem sucesso. Militar após militar, todo negaram estar com Stuart. Com a insistência para achar seu filho, ela vira alvo dos militares que começam a mantê-la sob vigilância.

O filme é alinear e vai e volta no tempo para nos mostrar que Zuzu foi uma mulher que enfrentou paradigmas desde muito cedo na vida. Com o ex-marido, um americano, teve três filhos. Quando se separaram, ela retornou com os filhos para o Rio de Janeiro apenas para conviver com o estigma de que “mulher desquitada é tudo vagabunda”.

Um dia, ela recebe uma carta de um companheiro do filho narrando a morte de Stuart. Ele conta como foi a captura dos dois e como foi o processo de tortura. As cenas são fortes. Como diz um dos militares: “A tortura é uma questão de tempo… e de dor”. As torturas a que Stuart foi submetido foram coisas mais do que tenebrosas e brutais. A busca de Zuzu agora muda. Ao invés de buscar Stuart nas prisões, ela começa a buscá-lo em cemitérios. Stuart morreu por conta das torturas e ninguém sabe onde está o seu corpo.

E aí, a mulher que pedia para o filho “deixar disso”, que tentava evitar dar opiniões políticas muito firmes, passou a bater de frente com os militares. Ela procura jornais, sem nenhum retorno. Ela faz cópias da carta que recebeu e envia para todos os intelectuais, políticos e a maioria das pessoas influentes com quem tinha contato. Seus olhos estão abertos para a realidade ainda que ela própria continue sendo ignorada. Seus vestidos de flores não importam mais.

A melhor parte é o julgamento de Stuart… depois de morto. Ele é inocentado, mas já não adianta mais. É uma palhaçada sem tamanho.

Luana Piovanni interpreta Elke Maravilha, amiga e modelo de Zuzu. A própria Elke faz uma participação especial. O desfile seguinte de Zuzu seria emblemático: os tons vibrantes e agradáveis dão espaço a tons escuros e estampas pesadas. Ao final do desfile ela entrega uma foto do filho para todos os presentes. Ela queria que a imprensa internacional contasse a verdade. Mal sabe ela que pedir ajuda nos EUA é o mesmo que nada, já que o país apoiou o golpe e os Governos militares subsequentes. Ainda assim, ela não deixa de tentar.

Patrícia Pillar é incrível. Não sei quantos corações dar para essa mulher. Atuação fantástica. É um filme grande, com boas atuações sobre uma vida verdadeiramente trágica. Zuzu morreu em um acidente de carro que, anos depois, foi reconhecido como atentado. Ninguém nunca foi preso pela morte nem de Zuzu, nem de seu filho (cujo corpo foi jogado no mar). Recomendo ver e rever e ver de novo, mas separe muitos lencinhos e esteja certo de que está em dia com o cardíaco.

Chico Buarque, amigo da estilista, escreveu uma música (Angélica) para Zuzu após a sua morte que é absurdamente triste.

“Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?

Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar”

*Resenha originalmente publicada no blog O Poderoso Resumão e gentilmente enviada pela Patrícia. Obrigada, Patrícia! :)

Lendo a Ditadura: A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga


Resenha de A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga, pelo blog Ficções do Interlúnio.
Clique na imagem para ler o texto.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

#Lendo a Ditadura: Retrato Calado, de Luiz Salinas





Aliné Aimée, do blog e canal Little Doll House, fez um vídeo resenha sobre o livro Retrato Calado, de Luiz Roberto Salinas Fortes. Obrigada, Aline! :)

domingo, 23 de agosto de 2015

Lendo a Ditadura | Erico Veríssimo - Incidente em Antares





A Inês, do blog e canal InêsBooks gravou um vídeo lá de Portugal sobre o romance Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. Obrigada, Inês! :)