quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Quarup, Antônio Callado


Título: Quarup
Escritor: Antônio Callado (Brasil)
Ano de Publicação: 1967
Editora: José Olympio
Páginas: 574
Gênero: Drama, Romance, História
Nota: ♥ ♥ ♥ 


Essa é uma obra de fôlego, contendo quase 600 páginas que acompanham a história do Brasil desde 1954, ano em que Getúlio Vargas morre, até pouco mais de 1964, quando a ditadura militar tem início. Ler essa obra tão grandiosa é voltar os olhos para o passado, buscando compreender o futuro do Brasil, o que se encaixa como um luva no nosso atual momento histórico.

Quarup é o livro mais famoso de Antônio Callado. É uma obra politicamente engajada, que discute a identidade do Brasil enquanto país, enquanto nação. Seu protagonista, o padre Nando, é uma metáfora para todo o povo brasileiro, em sua constante busca por objetivos, por definições e por valores. Em muitos aspectos, por suas grandes ambições, Quarup me lembrou Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Quarup, contudo, é uma obra mais voltada para a realidade política do Brasil, enquanto Viva o Povo Brasileiro foca mais nas questões sociais e raciais.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Pessach: A Travessia - Carlos Heitor Cony


Em “Pessach: A Travessia” acompanhamos o escritor Paulo Simões em uma série de compromissos que ele deveria cumprir no dia de seu 40º aniversário: ir ao escritório para falar com seu editor, visitar a filha no internato, passar pela casa dos pais para o almoço protocolar, aproveitar para dar um pulo na casa da ex-esposa, receber um colega que dizia ter um assunto urgente para tratar. A cada parada, uma surpresa. O dia que parecia ser apenas mais um igual a tantos outros se transforma no início de uma grande mudança.

Paulo é um cara comum, que se define como simples, neutro, sem nenhum traço que o faça se destacar, sem amigos, dívidas ou amores. No dia em que completa 40 anos ele se sente velho, cansado e inútil. Tudo o que quer é ter um dia agradável e sem complicações, mas isso é exatamente o oposto do que acontece. No escritório, o editor lhe pede um conto com um tema inusitado e fútil; no internato a filha se mostra animada ao falar dos livros comunistas proibidos que lê às escondidas com as amigas e o chama de alienado; na casa dos pais, a mãe sofre de dores e aguarda o médico enquanto o pai diz que quer se assumir judeu depois de uma vida toda de negação – e ainda esquecem de seu aniversário; a ex-esposa lhe apresenta ao novo marido beberrão e ao filho recém-nascido que ele nem sabia da existência; por fim, o antigo colega o convoca para a luta contra a ditadura. Novidade demais para absorver de uma vez.

Sendo um cara declaradamente sem posicionamentos, Paulo Simões (cujo sobrenome real e judeu é Simon e que aprendera a renegar sua origem com o pai) ri diante da proposta do colega Sílvio. Envolver-se em política, lutar contra a ditadura, pegar em armas? Não, nem pensar! Ele já demonstrava seu apoio assinando manifestos. Era o máximo que podia fazer, obrigado. E, com licença, mas tenho um conto encomendado para escrever e vou viajar para poder me dedicar totalmente ao trabalho. Quem sabe começar a pensar em um novo romance. Adeus e boa sorte!

Só que as coisas não saem bem como Paulo havia planejado e, ao dar uma simples carona a Vera, a moça que fora com Sílvio ao seu apartamento, ele se vê envolvido com um grupo que se organizava para derrubar a ditadura. Acaba ficando preso em um sítio que servia de base para um braço da organização (não que fosse refém; apenas não podia ir embora), é apresentado ao funcionamento do local, recebe uma cabana só para si, para que pudesse escrever à vontade, conhece melhor alguns participantes do movimento. Embora ninguém o obrigasse a participar, Paulo fazia questão de enfatizar sempre que tinha oportunidade que não queria participar de nada, que só estava ali porque era obrigado, que assim que pudesse voltaria para casa e retomaria sua vida pacata, ordeira e sem emoção.

No entanto, sem se dar conta, Paulo acaba envolvido na luta; primeiro só se oferecendo para escrever sobre os ideais do grupo antiditadura; depois realmente partindo para a ação e pegando em armas. Ainda que relutasse em participar e agisse contra sua natureza, quando, a certa altura da história, ele é liberado e tem a chance de tomar um avião rumo ao seu aconchegante e seguro lar, ele já está modificado demais para não se importar com tudo o que vê ao seu redor.

E é então que o título do livro passa a fazer sentido: “pessach” significa “travessia, passagem”, e é a festa judaica que celebra o êxodo do povo hebreu que preferiu a fome e a morte no deserto a continuar escravo, fugindo pelo Mar Vermelho. A princípio, era apenas um esboço de romance que Paulo iniciara anos antes e que pretendia desenvolver nesse período de isolamento – algo que retomava sua origem judia e que explicava de certa forma a trajetória de seu pai. Depois o termo se amplia ainda mais, e acaba representando sua própria trajetória, de alienado e descompromissado a consciente e engajado. Como seus ancestrais, ele também preferiu abrir mão de uma vida cômoda para encarar as dificuldades da luta pela liberdade.

A primeira parte do livro é bem comum e sem ação, refletindo perfeitamente Paulo e sua existência entediante e sem propósito. A partir do momento em que dá carona a Vera, ele perde completamente o controle de sua vida, se desespera, fica irritado, tenta a todo custo voltar para o que conhece e está acostumado. Como não pode escolher, é arrastado para um mundo bem diferente do seu, mas o qual acaba abraçando, deixando sua individualidade de lado pelo bem do coletivo. Nem preciso dizer que essa segunda parte é bem mais animada e faz a leitura fluir mais rápido, tornando sua contraposição com o início da história ainda mais relevante.

“Não gosto do governo atual, mas jamais gostei de governo algum. Politicamente, sou anarquista comodista, e, por isso, inofensivo e covarde. Não estou disposto a dar ou receber tiro por causa da liberdade, da democracia, do socialismo, do nacionalismo, do povo, das criancinhas do nordeste que morrem de fome. O fato político não me preocupa, é tudo."

Um sujeito apático que encontra uma motivação para sua vida. Diante de tantos retrocessos que temos visto ultimamente, faz pensar: até que ponto somos como o protagonista de "Pessach"?

Resenha originalmente publicada no Resumo da Ópera e cedida para o projeto Lendo a Ditadura

domingo, 4 de outubro de 2015

K., de Bernardo Kucinski


Resenha do livro K., de Kucinski, feita pela Gabriela Francine, do canal Viver para ler, para o Projeto Lendo a Ditadura.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Zero - Ignácio de Loyola Brandão

interlunio37-zeroPublicado em 1974, primeiramente na Itália e só depois no Brasil, Zero é um romance que oferece um retrato pungente de sua época, pois foi escrito pela necessidade de grito diante da Ditadura Militar Brasileira (1964-1985), um período marcado pela censura cultural e o controle dos indivíduos no que eles tinham de mais íntimo, assim como a prisão, tortura e assassinato de pessoas que se opusessem de qualquer forma ao regime.

Extremamente experimental, Zero é um dos romances mais incomuns com que um leitor pode ser deparar na Literatura, pois ele intenta retratar o caos tanto no conteúdo quanto na forma e isso fica evidente pelos vários tipos de textos que se apresentam ao longo da narrativa: a simulação de recortes de jornal, propagandas, cartazes, inscrições de banheiro, letras de músicas e inúmeros outros tipos de texto vão criando uma paisagem do país e seu contexto histórico-social. A diagramação é inusitada, semelhante a de um almanaque, com diversas tipografias, para cada gênero de texto e para cada tipo de efeito. O autor queria ter utilizado até quadrinhos no corpo do livro, o que não foi possível na época de publicação. Além disso, as notas de rodapé oferecem um ponto de vista à parte, com o próprio autor (ou um narrador onisciente, como queira) conversando com a história e ironizando o que está sendo feito ou dito pelos personagens.

O protagonista de Zero é José Gonçalves, um homem comum, que mata ratos num cinema vagabundo. Ele conhece Rosa, sua futura esposa, através de uma agência matrimonial e vive uma relação de amor e ódio com ela, com inúmeros momentos tanto de intensas atividades sexuais como de enormes brigas. Ao longo do livro, José vai se tornando cada vez mais inconformado com o mundo e sua situação neste, até que torna-se um criminoso, e a partir daí o livro vai ficando cada vez mais caótico e violento. O personagem é um símbolo exagerado do inconformismo e do caos:
“Eu fico puto da gente ir aceitando assim, por aceitar, porque está pronto, não precisa mexer. Na verdade, não é bem puto, eu fico confuso, me atrapalha. Às vezes, para mim, uma coisa é quatro e não sete, como eles estão dizendo, mas eles não podem ver como eu posso, que ela é quatro. Eu sinto dentro de mim a linguagem das coisas me dizendo: eu não sou isso, sou aquilo. E tenho que acreditar nas coisas, sejam pedras, paus, plásticos, ferros, papel, flores, o que for."
Enquanto ocorre a saga de José, acompanhamos outras pequenas sagas, e a partir delas o autor aproveita para fazer várias críticas à situação dos brasileiros. Um exemplo disso é a história de Carlos Lopes, que enfrenta uma burocracia esdrúxula e massacrante para que o filho doente seja atendido por um médico. Em outro momento ele põe em foco a falta de identidade dos conjuntos habitacionais, com a personagem Rosa perdida quando volta para sua casa pela primeira vez e não sabe localizar onde mora. Ele ironiza a sufocante padronização de tudo, a proibição do pensamento, do sexo, do prazer, sobretudo das mulheres.

Na edição comemorativa de 35 anos da Global Editora há um depoimento do autor chamado “E se eu não tivesse tido coragem de publicar o Zero naquele ano de 1974?" em que ele comenta como o livro foi se formando, a partir de vários textos que eram censurados no jornal Última Hora, local em que trabalhava na década de 60. Brandão imaginou que tudo aquilo poderia ser aproveitado, uma história que contasse aquilo que não poderia ser dito. Tudo é narrado da forma mais enxuta possível, pois o leitor já conhece a realidade do que lê. Não há necessidade de muitas descrições, daí o grande número de sugestões, com a enorme variedade de textos que compõem o romance. Não é exatamente um livro para apreciar a leitura: é um livro para pensar e para constatar que o passado não faz a menor falta.

*Texto publicado originalmente no blog Ficções do Interlúnio para participar do projeto Lendo a Ditadura.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias


O ano é 1970 e a Copa do Mundo do México se aproxima. Nada poderia ser mais empolgante para o pequeno Mauro (Michel Joelsas), garoto de 11 anos apaixonado por futebol. Só que a ansiedade pela estreia da seleção dá lugar a uma espera triste e angustiada por um telefonema dos pais, que são obrigados a ‘sair de férias’ repentinamente, deixando o menino aos cuidados do avô paterno.

O filme começa com Mauro jogando uma partida de futebol de botão, que é interrompida bruscamente pela chegada do pai, que já entra em casa apressado, pegando malas e arrastando para o carro esposa e filho. Durante a viagem para a capital de São Paulo, é nítida a tensão da mãe, dividida entre o que queria e o que precisava fazer, e o deslumbramento do menino diante dos edifícios altíssimos do centro da cidade e do caminhão militar na estrada. Diante da porta do prédio do avô, Mauro recebe beijos rápidos de despedida e a recomendação de dizer que os pais saíram de férias a quem perguntasse por eles. E ali ele fica, sem entender direito o que está se passando.

O destino decide que é um bom momento para pregar uma peça e acontece de Mauro descobrir que o avô havia morrido naquela mesma manhã, deixando-o sozinho no mundo. A contragosto, ele é acolhido pelo vizinho do avô, Shlomo (Germano Haiut), um judeu idoso solitário que não sabe muito bem o que fazer com uma criança. O choque de culturas e hábitos é incômodo para os dois, mas ambos acabam se adaptando e desenvolvem uma bonita relação. Enquanto aguarda um contato dos pais, Mauro conhece outros moradores do bairro, faz amizade com as crianças, se apaixona platonicamente pela atendente da lanchonete e vivencia toda a emoção da Copa.

Fica claro desde os primeiros minutos que os pais de Mauro são militantes da esquerda fugindo da ditadura, mas o diretor foi muito feliz e bem-sucedido ao abordar esse período tão violento da história do país pela perspectiva de um menino. Em momento algum a dura realidade do que acontecia é deixada de lado; ela é apenas diluída, suavizada pelos personagens adultos para poupar a criança de um sofrimento que ela ainda não é capaz de entender.

O filme consegue dosar perfeitamente momentos divertidos (como quando Hannah (Daniela Piepszyk), a única menina da turma, cobra entrada dos garotos para que espiem pelo provador da loja de roupas da mãe – uma travessura clássica de outros tempos) com aqueles que demonstravam a brutalidade da ditadura (pessoas do bairro sendo agredidas pelos militares e detidas para interrogatório).

A escolha do futebol como pano de fundo também é muito significativa: enquanto milhares de pessoas fugiam, apanhavam, eram mortas por tentarem mudar a situação política do país, outros milhares pareciam desconhecer o que se passava, hipnotizados pelo campeonato mundial. A decisão do próprio Mauro, de ser goleiro, é emblemática: ele é aquele que fica a maior parte do tempo sozinho, observando o que se passa ao redor e tentando entender, enquanto espera pelo pior.

Um filme que fala de amizade, de diferenças, de escolhas e de amadurecimento. Mais que recomendado!

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Resenha originalmente publicada no Resumo da Ópera e cedida para o projeto Lendo a Ditadura

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Mulheres, ditadura e memórias





Vídeo gentilmente gravado pela Agna Farias, especialmente para o projeto Lendo a ditadura. Obrigada, Agna!